Vida após a morte do amor
Martha Medeiros
Antes de mais nada, é prudente avisar: este texto não é sobre religião. Mas, para fazer a analogia que pretendo, é necessário que eu diga que não acredito em vida após a morte. Não só não acredito como torço para que não haja. Depois do último suspiro, que venha apenas o sono eterno. Não faço a menor questão de ser transferida para outro plano, de ganhar uma sobrevida para meu espírito, de reencarnar em outra pessoa. Me estresso só de pensar. Sono eterno, pra mim, está mais do que bom. Mas se você tem fé e acredita em outras vidas além desta, ótimo. Não vou tentar fazê-lo pensar igual a mim, quem sou eu. Temos apenas opiniões diferentes e inofensivas. Amigos?
Bom, acho que me livrei de algumas cartas raivosas. Religião, por incrível que pareça, é o maior fomentador de intolerância. Agora vamos ao real assunto desta crônica. O amor.
Quando um amor termina, é como a morte. Quem já passou por isso, deve lembrar da sensação asfixiante de estar abandonando a si próprio, mesmo que siga respirando. A dor-de-cotovelo não é uma dorzinha à toa, que qualquer Tylenol resolve. É uma interrupção violenta. É a constatação de que algo não irá se repetir. E não irá mesmo. Você e aquela determinada pessoa, naquela determinada época, acabou. The end. Finito. Restam as lembranças, mas voltar no tempo, impossível. Deixar de amar ou deixar de ser amado é o mais perto que chegamos do fim.
Porém, neste caso, aposto todas as minhas fichas numa ressurreição. Acredito que depois da morte emocional há outra vida apaixonante nos aguardando. Acredito porque está provado, porque milhões de homens e mulheres já viveram esta experiência de renascer através de outro relacionamento. Depois que o amor se vai e com ele toda a nossa esperança, eis que outro amor aparece e nos dá novo fôlego para continuar.
E ele pode ser ainda melhor. Mais pleno. É o encontro de duas pessoas que já possuem, cada qual, um passado amoroso. Sofreram suas "mortes" e se descobrem, de repente, ricos de vivência interior e anterior, como se tivessem passado por tudo o que passaram apenas para se preparar para este novo episódio. Tudo reiniciando por causa de alguém que acaba de chegar, ou talvez por causa de alguém que acaba de voltar, mas que é novo também, já que está mais maduro, com as feridas cicatrizadas. Pode-se amar uma única vez em cem anos. Mas pode-se também amar duas, três, muitas vezes, enquanto tivermos o desejo de abandonar a solidão e voltar à intensidade dos dias. Uma vida em cada amor, várias vidas numa vida.
Isso sim é um milagre que ninguém deveria abrir mão de acreditar.
Domingo, 12 de junho de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.